quarta-feira, 30 de junho de 2021

Euro 2020 (Oitavos-de-final).


Se este Euro de futebol 2020 fosse um filme de Hollywood na nobre tradição do underdog que vence contra todas as probabilidades, a Dinamrca seria a campeã. Depois de perder o seu melhor jogador da forma que se sabe, depois de perder os dois primeiros jogos da fase de grupos, depois de um Napalm da vida ter escrito que “1992 não se repetirá”, a Dinamarca, depois de tanta porrada, está nos quartos-de-final, após cilindrar ovelhas galesas sem agilidade e força para fugir dos dentes famintos dos nórdicos. Segue-se a República Checa, um adversário esteticamente belo como os arabescos sonoros de uma betoneira, mas tão poderoso que conseguiu reduzir a tamanho minúsculo os jogadores da seleção pertencente ao país com a maior média de altura do mundi. Promete.


O Itália-Austria pôs fim a duas das mais interessantes narrativas deste campeonato, a saber: 1) o Sabitzer irá acertar uma única vez na baliza? 2) o Schlager conseguirá não incomodar um adversário como se este, além de lhe dever dinheito, também tivesse proporcionado prazer sexual à sua esposa? Também um jogo que deve ter permtido o esfregar de mãos dos “Ribeiros Cristovãos” e “António Fidalgos” e demais múmias. Já os imaginamos, murmurando: “Estão a ver? Cínica, cínica Itália! Quando menos se esperava, marcam e acabam com o jogo! Com os italianos não se brinca! Com um treinador como o Arrigo Sacchi, um defesa como o Trapattoni e um avançado como o Altobelli, fica tudo mais fácil! A que horas estreia o novo do De Sica?”. Vendo estes jogos da Itália, questionamos como irá o Mourinho transformar o Spinazzola num lateral cobardolas e como é que o Belotti tem um rating de 91 (de 0 a 100) no Soccer Manager. É um jogador ligeiramente superior ao Andy Carrol.  


Uma das consequências negativas da queda do comunismo no leste europeu: o fim dos misticismos e assombramentos das visitas aos clubes e selecções que habitavam para lá da “cortina de ferro”. Os jogadores dos clubes e selecções ocidentais iam lá jogar com a mesma confiança possuída pelo Jonathan Harker enquanto viajava para conhecer o drácula; nada sabiam o que os esperava, alguns até se aproveitando para se despedir das famílias, deixando testamentos avultados para as suas esposas que rezavam munto para que eles voltassem...hum...são e salvos. Do lado de “lá”, os jogadores rebubilavam de alegria, vendo nesses encontros de bola uma oportunidade para saberem que filmes tinham estreados no seu próprio país, que livros de escritores da sua nacionalidade tinham sido publicados em terras capitalistas, e se os Beatles tinham acabado (isto em 1986). Agora, tristemente, está aí tudo à mão de semear, tudo visivel, sem mistério e espanto algum, para grande desgraça nossa, do Botelho e da Rita Rato, cujo singelo desejo é que regressem os comités sub-regionais para decidir como é que uma pessoa deve dirigir a sua vida. Holanda-0 Republica Checa-2.


“A sorte não quis nada connosco”. “Ás vezes a bola bate no poste e entra, noutras não”. “O futebol pode ser muito injusto, mas o que conta é o resultado final”. “A Bélgica só marcou na única vez que fez um remate à baliza”. “Há que continuar a trabalhar”. “Temos de levantar a cabeça”. “Encostámos a Bélgica ás cordas na segunda-parte”. “Não tivemos a sorte que tivemos há cinco anos”. “Saímos deste Euro de cabeça erguida”. “Controlámos o jogo todo”. “Depois do Mundial de 2018 ganhámos a Liga das Nações, porque é que agora também não podemos ambicionar vencer o Mundial de 2022?”. “Obrigámos os belgas a simularem faltas e a perder tempo”. “A bola só não entrou porque o Courtois é grande de mais”. “O árbitro, também...”. “Pedimos desculpas a todas as mulheres portuguesas, que vão voltar para os pratos e roupas depois de duas semanas de férias”.



Barrar tulicreme na barriga da Amber Heard enquanto se lambe, entre os seios da Diane Lane, um belo pedaço de leite creme queimado; ver de seguida o The Searchers e o Pyscho; sair para a noite com o Dr. Álvaro Cunhal e o Dr. Mário Soares; bacalhau à lagareiro seguido de um pudin flan (que mais tarde será utilizado para servir de ornamento nas nádegas da Joana Duarte): acreditamos que estas quatro actividades diferentes consigam superar, em termos de puro prazer, o que aconteceu, no mundo do futebol europeu, a 28 de Junho de 2021. No Espanha-Croácia, a história começa com os espanhóis a sodomizarem os croatas com sucessivas cavalgadas de troca de bola num espaço de 30 metros, até que aconteceu algo tão cómico como descuidado. Pedri, fruto da sua distraída idade, decidiu atrasar a bola , desde o meio-campo, para o seu keeper Unai Simon. Ora, Unai Simon, que tem passado este Euro a ler Positifs dos anos cinquenta em pleno relvado, quando viu aquele objeto redondo a vir na sua direcção, entrou em apuros psicológicos, decidindo, cheio de dúvidas, a melhor forma de aparar aquele ovni. O ouriço sem espinhos passou por cima do seu pé e foi golo. Tudo a rir. Os croatas, banhados em lágrimas de riso e motivadíssimos, aproveitaram o desnorte espanhol para ameaçar o 2-0, mas o 1-1 antes do intervalo seria o prelúdio da lógica supremacia da real armada, afincada nos 3-1 a dez minutos do fim. 3-2. E depois os croatas, como que levando pazadas de espinafres ao estômago, empataram 3-3. Prolongamento. Unai Simon, ao calhas, evita por milagre divino o 3-4, mas os milagres não ficariam por aqui: o Morata marcou um golo, sendo certo que falhou mais uma meia dúzia de baliza quase aberta. Acabámos o jogo a suar, como se tivéssemos passado uma hora e meia a retirar migalhas de bolo-mármore do corpo da Alicia Silverstone.

Mal refeitos do repasto da tarde, somos chicoteados com a diversão nocturna do França-Suiça. Um jogo que, durante noventa minutos, foi praticamente a cópia do jogo anterior. Nos trinta minutos de prolongamento, nada a registar, até que é altura de penaltys. O realizador do evento decide filmar cada penalty num plongée que transforma a baliza num ponto quase totalmente ocupado pelo guarda-redes. No deciivo penalty, Mbapée falha, coroando, de maneira bastante coerente, um Euro pessoal patético. Estenuados, depois de horas de intensa actividade psicológica, fomos pasmar, vendo um filme português “sobre violência doméstica” na RTP Play.


A primeira parte do Inglaterra-Alemanha foi de pouco interesse, levando-nos antes para divagações do seguinte tipo: quantos bisavós dos jogadores ingleses levaram com bombas em cima ordenadas por um regime que alguns dos bisavós dos actuais jogadores alemães apoiavam? E com isto chegou o intervalo. Mas as divagações por tragédias hipotéticas dariam lugar a horrores actuais, quando o Jack Grealish marcou um golo com um passe para o Sterling. A Inglaterra a vencer a Alemanha. Numa competição oficial. Alguém que nos ajude. O inútil Muller (ele e o Hummels são o Paolo Rink e o Jens Nowotny de 2021), esse miserável, nem um remate sabe fazer, filho da puta. Pouco depois, o Grealish voltaria a marcar, desta vez com um passe para o Kane. Desde a final roubada do Mundial de 1966 que os ingleses não festejavam tanto na cara dos alemães (e já foram a Munique ganhar 1-5, em 2001). Alguém que nos ajude.


Sensivelmente a partir dos 75 minutos, o Suécia-Ucrânia assemelhou-se a uma daquelas provas de marcha, em que alguns corredores, a uns dez quilometros da meta, já andam todos tortos, curvados, a indiciar queda iminente. O cansaço dos amarelos e azuis sentia-se no sofá, enquanto bebiamos uma nojenta tequilla. Nos 74 minutos precedentes, aconteceu um festival Forsberg, certamente muito mais interessante que qualquer festival temático de cinema que há por esse mundo fora. Depois chegou o tal minuto 75, as baterias começaram a diminuir, chegou o prolongamento, um sueco ia partindo a perna a um ucraniano, a Ucrânia sem arte para ultrapasar a muralha escandinava, até que golo dos celeiros. Ânîmos exaltaram-se, o Schevchenko ameaçou o Janne Andersson com um derrame de radiação na sua casa, acabou o jogo, e nós começámos imediatamente a marcar missas em honra de São Dovzhenko, padroeiro do trigo e do milho. Ucrânia, esqueçam por momentos disputas sentimentais/políticas com a Rússia; por agora, em nome da Humanidade e do Futebol, terão de impedir que uma desgraça aconteça no próximo Sábado. Se esse jogo fosse um filme-catástrofe do Emmerich ou do Bay, existiram aquelas planos de multidões a rezar em volta da Torre Eifel, do Taj Mahal ou das muralhas da China.

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