Segunda-feira, 4 de Junho de 2012

de todas as obras-primas dos "gajos de 70", nem uma se encontra nos "anos 70".



talvez a do Coppola.

notícias de 2012.




Há cousa de três meses, no cinema, Shame causou boa impressão. Revisto há cousa de dois dias, a impressão já não foi tão boa. O que já gostava permaneceu intacto, o que pouco apreciava ainda apreciei menos, indo ao ponto da irritação. Tanto apraz o espírito com dilatações temporais desmesuradas ( magníficas cenas de sedução e quase consumação entre o tarado e a colega de trabalho, ou ainda o plano da discussão entre o punheteiro e a irmã- actores abandonados a hesitações e a embaraços), como cai na sordidez de montagens paralelas ridículas, uma musiquinha épica (que não é mais do que uma remix da Journey To The Line do Thin Red Line) para exteriorizar o "drama, o horror, a tragédia" do fodilhão, ou ainda coincidências de argumento saídas de um qualquer livro daquele guru dos argumentos que agora me escapa o nome, a saber: não me lembro de ter apanhado duas vezes a mesma boazuda no metro, ou o ainda melhor "este homem é tão fodilhão que, mesmo sendo hetero, vai com homens e tudo". No Hunger o McQueen já evidenciava visíveis sinais de esquizofrenia, com a total secura a conviver com planozinhos de passarinhos e bosquezinhos, que formosura e que deleite, mas aqui bate de chapa forte.

Como não vi o Shotgun Stories, abstenho-me de confirmar se Jeff Nichols é o bezerro de ouro número 897 a sair do púcaro do "cinema independente norte-americano". Por este Take Shelter, escreverei que a montanha pariu não um rato mas uma bactéria num prato da sopa do Cronenberg. Também aqui intromissão musical sem critério, e redundâncias várias no género terror movie. O ritmo contemplativo parece estar mais de acordo com os recentes e "ásperos" bocados de "cinema adulto" das Américas, artificialismo que não faz mossa nenhuma, mas que também não provoca maravilhas na mente. A partir de um determinado ponto (para aí a partir dos cinco minutos) começamos a contar o tempo até ao big payoff; ele lá surge, com a mulher do Shannon (melhor actor do mundo?) a abanar a cabeça, como quem diz, "sim, amor, tinhas razão, sou uma cadela imunda por não ter acreditado em ti nem ter visto nenhum filme do Shyamalan. Coça-me". 

O Eastwood lá continua com o seu enorme despudor em realizar filmes após- Gran Torino. Não tem emenda, este homem. Não segue os bons conselhos que lhe dão e, pior ainda, ´tá-se a cagar. Continua com a mesma escabrosa delicadeza, o mesmo impertinente retrato de sombras, a mesma desgraça em continuar a investigar a Mentira, o mesmo desplante em agrupar as mais belas e harmoniosas peças musicas do cinema actual. Neste J. Edgar vai ao ponto de estabelecer uma relação homossexual sem que planos de caralhos surgam no horizonte, uma terrível afronta aos tempos modernos. Inebriante putrefacção a magnificiência. Era agarrar em ti, Clint, e atirar-te para o meio da secretária do Vasco Câmara, enquanto ele te torturava com mais uma visão daquela coisa do Tocha. Seu bandido.

E agora, silêncio, que se vai beber um vinho do Porto. Acabada há pouco a terceira visão de Le Havre, fui à imunda cozinha buscar uns lenços para limpar as lágrimas que corriam discretamente desde o primeiro plano, quando reparei que não havia lenços, mas sim uma mosca-varejeira no prato, a debater-se gulosamente com um bocado de resto de presunto. Ao ver Le Havre, também me sinto uma mosca-varejeira a sorver cada atómo desta genialidade tão bela que nem sequer encontro palavras no dicionário Houaiss para a descrever. Impressionante a quantidades de doces neste filme: cigarros a acenderem-se, pão a molhar-se em ovos, copos de vinho branco, baguetes, humor extraterrestre (adoro a sociedade. quer comprar alguma coisa?- sim, um ananás), um gira-discos, um pseudo Johnny Halliday a cair de podre, a dicção do Andre Wilms, a convocação do Simenon, o Léaud a cair de podre, as grandiosas casas-museu de Kaurismaki, a noite na Normandia, cães a arfar, floristas, um zoom milagroso e ainda mais, é só ver. Espanto de detalhes. Melhor filme do ano. De longe.

Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Let off some steam, Bennet.



Ao nível da cachaporra e da masculinidade, os cinematográficos anos Reagan já adquiriram belos contornos vintage. Melhor ainda: não havia pretensão nenhuma em vender gato por lebre, nem de  empacotar "temas" como refugo para delírios "tecnológicos", nem indistintos exercícios saudosistas. Portanto, uma perna do lombo de cada Joseph Zito, Mark L. Lester, Albert Pyun, Menahem Golan, ou Mark Di Salle vale bem mais do que meia dúzia de toneladas "sofisticadas" de cada Wachowski, do Nolan ou do ainda pior Abrams. Podem consultar mais Alyssa Milano aqui.


E, no entanto, prefiro estar a viver no segundo mundo do que experimentar, uma hora que seja, o primeiro.

A não ser que nesse primeiro mundo eu faça parte da hierarquia de poder, daí resultando grandes vantagens para a minha pessoa ao nível das comodidades vestuárias, culinárias e culturais, ao mesmo tempo que nego tais prazeres demoníacos ao povão, mantendo a todo o custo a pureza ideológica nos seus crânios, utilizando para tal objectivo, se necessário, a identificação de um inimigo, o que irá aguçar ainda mais a pureza ideológica no povão, nem mais nem menos o que faz muito filha da puta "revolucionário" por esse mundo fora, uns quase a bater a bota e outros ainda bem saudáveis. Então sim, neste enquadramento, eu prefiro o primeiro mundo.

Embora haja uma terceira hipótese: estar a viver no primeiro mundo e não o saber.

E uma quarta, porque não: o primeiro e o segundo mundo são uma e a mesma coisa.

Golo do Rivaldo, no Espn Classics.

Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Petzold, o homem que muito gosta de filmar carros e episódios dançarinos.



...em Gespenster e Jerichow encontram-se dois dos mais prazeirosos momentos de dança do cinema recente. Puro abandono. No segundo caso, com o extra de um bom pedaço de chouriço. Ou pareceu-me.

onde se dá conta de tops e de outros ridículos sucessos.

De dez em dez anos, a Sight and Sound pergunta a um milhão de pessoas ligadas aos filmes quais são os seus dez filmes preferidos de todo o sempre. Depois, salvo erro, atribui pontos por cada filme votado, e estabelece a lista final dos filmes mais pontuados. A última vez que isso sucedeu foi em 2002, por isso deve estar para breve nova ronda pela burguesia cinéfila. Também decidi fazer a minha lista de dez filmes preferidos de todo o sempre, mas não sem antes perguntar ao Rosenbaum se a podia efectuar, ao que ele anuiu, desde que desse com um pau na cabeça do Miguel Relvas e/ou fizesse um fellatio ao Diogo Dória. Não encontrei pau nenhum. E agora recuemos cinco anos...

...quando não havia crise financeira, os portugueses da Grécia só conheciam o Charisteas e o FMI era uma palavra numa canção do camarada José Mário Branco. Pois foi exactamente nessa altura que me pediram para eu "elaborar" uma lista dos meus dez filmes preferidos desde a invasão dos hunos. Passado este tempo todo, a maior parte da lista mantém-se inalterável, com as excepções que eu já de seguida irei nomear, não sem antes ir comer um chicken burguer do Pingo Doce, com mostarda e uma Cergal a acompanhar. Já volto.

Interlúdio musical: sem dúvida.

...quando se é pobre, merda é o que se come. Bom, vamos lá ao coiso. Ora, que raio faz ali o Triumph des Willens? Não é que eu não goste muitíssimo do filme, tal como o Olympia, ou a Luz Azul, porque gosto muitíssimo, e, sobretudo, é um bom tópico cinematográfico para uma saudável discussão à paulada com um esquerdalho (pode ser junto ao Bar Americano). Mas não está, neste momento, no meu topo de prioridades preferenciais. O Playtime, sendo óptimo, nem sequer é o meu favorito do frére Jacques, estando até atrás do discreto Traffic; borda fora também. O M, do monóculo, segue a mesma cartilha anterior; se eu fizesse um top ten dos Langs, deveria para aí ficar em quinto ou sexto, atrás, inclusive, dos filmes "indianos". Que sa foda. O resto está de pedra e cal, mesmo o Raging Bull, tão puído de sucessivas visões que há dias o revi um bocadinho e já não senti nada. Agora os filmes substitutos:

-They Live!: óbvio.

-Snake Eyes: não só o meu preferido do Senhor Esteja Convosco, como o meu mais sincero prazer dos anos noventa. E a Carla Gugino está com umas mamas tão boas.

-La Jetée: esta genialidade provocou impressão tão favorável, que só a vi duas vezes. Não a verei até não se dissiparem as doces memórias de aquando da sua primeira visão.

Acrescento um aos dez filmes, sendo ele os Ambersons, ainda que todo estropiado. A narração do Orson, sobretudo no momento em que o Cotten desce ao abismo, deverá estar ao nível de uma punheta de mamas da Carla Gugino no Snake Eyes.

E assim vão estas práticas, ás 18:46 de diz 30 de Maio do ano 2012:

Close-Up
They Live!
Recordacões da Casa Amarela
The Night of the Hunter
La Jetée
Raging Bull
Hana Bi
Psycho
Great Dictator
Snake Eyes

e ainda

os Ambersons.



Sábado, 19 de Maio de 2012

O ator e realizador norte-americano Sean Penn apelou hoje, durante uma cerimónia em Cannes, às mulheres presentes para fazerem greve de sexo em solidariedade com todas as mulheres no Haiti.

"Quero que todas as mulheres, em solidariedade com as mulheres do Haiti, que sofreram mais do que qualquer mulher no mundo, digam aos homens: hoje não vou ter sexo contigo a não ser que faças um donativo" para apoiar aquele país, disse o ator. 

 E aqueles homens que estão desempregados e sem qualquer fonte de rendimento, Sean? Têm de ir pedir dinheiro aos papás para o "donativo"? E se estes perguntarem a razão de tão súbito "empréstimo", eles vão ter de explicar que "só assim voltarei a ter sexo com a esposa"? E se não houver papás nem ninguém? Só voltarão ás delícias quando arranjarem emprego? E aqueles que, mesmo tendo emprego mas recebendo misérias, terão, porventura, entre optar por comida para os filhos esfomeados ou para o "donativo"? E quando é que voltas a trabalhar com o De Palma?