domingo, 20 de janeiro de 2013

exemplo prático e cristalino da existência do MAL.



AM: Eu discordo absolutamente dessa filosofia. Para mim, existe uma questão teórica interessante aqui que tem a ver com a relação entre a tecnologia e o objecto fílmico. Parece-me que ter um fetiche por película é um erro, porque esta é apenas uma tecnologia temporária cujo intuito é trazer o filme até nós. Aliás, trata-se da pior tecnologia alguma vez inventada: dez bobines, pesadas, difíceis de manejar, inflamáveis… O som é outra questão muito importante. Em muitos cinemas com projecção analógica a qualidade de som é muito fraca e não consegue transmitir toda a potencialidades sonoras da banda sonora. Quando vejo filmes antigos em DVD finalmente consigo ouvir o som muito melhor do que em cópias de 16mm, desgastadas por terem sido transportadas por esse mundo fora. E não concordo com esse argumento de que os realizadores queriam que víssemos o seu filme apenas em película… Penso que isso é completamente irrealista e pouco prático. É elitista de uma forma negativa. Eu não sou contra o elitismo necessariamente, mas esta ideia de que só podemos ver os filmes de Max Ophüls em cópias em película 35mm de há cinquenta anos parece-me uma idiotice. Para mim passar um filme antigo para DVD é a evolução natural da tecnologia funcionar. Estamos a dar ao filme um novo suporte, uma nova base tecnológica. E as bases tecnológicas estão sempre a mudar. Não podemos ficar congelados no tempo e dizer que são a película e a projecção as únicas bases tecnológicas válidas. Ao final de contas a minha teoria sobre isto é que o que realmente interessa é o filme que fazes na tua cabeça, aquela que te lembras. O filme que podes projectar vezes e vezes tem conta na tua memória. E não interessa se é uma cópia em 35mm com riscos ou outra coisa qualquer. Porque o que te lembras é sempre o filme perfeito. A tecnologia no teu cérebro é a única tecnologia final nesta constante mutação de suportes. A tecnologia do cérebro é a melhor [desde que o teu cérebro trabalhe (risos)]. No meu leito de morte quero ser capaz de recordar os melhores filmes que vi e é muito mais importante do que dizer: “leva-me a uma cinemateca antes de morrer”. O filme mais belo é aquele que transportas dentro de ti.

A luta contra estes bandidos tem de ser corajosa e sistemática, mas não desprovida de bondade, amizade e muito amor. Não podemos, todos nós, grandes e belos defensores das poeirentas bobinesezzz e da "magia da tela" (por vezes a nossa única amiga, se excluirmos a mão direita)  ficar indiferentes a estes flautistas de hamelin que nos iludem com cânticos mefistofélicos dessas coisas do "mundo em transformação". Vou já buscar meia dúzia de paus. Afiados.